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Um percurso na “Vetusta Beira”

Roteiro das Marcas Mágico-Religiosas no Centro Histórico Guarda

O Urbanismo e a Arquitectura no Contexto Judaico

 Rua Dr. Sousa Martins

Judiarias - Os "Guettos" Medievais

O Colégio do Sagrado Coração de Maria e as “Lurdinhas”

Um Microcosmo Citadino: A Judiaria Medieval da Guarda

A Guarda, o Farnel e o 1º de Dezembro

D. Sancho I
A Capela (Igreja) da Misericórdia
A Ermida dos Rémedios
Sistema Defensivo
Chafariz da Dorna
Chafariz dos Amores
A Judiaria
Capela do Mileu
Igreja de S. Vicente
Janela Renascentista
Porta D’El-Rey
Porta do Sol
Urbe Medieval da Guarda
Paço do Biu
A estação arqueológica do Mileu
 
     
     
 
 
   
 

 

 
  Um percurso na “Vetusta Beira”  
     
 

“Alta Cidade da vetusta Beira
Entalhada na monstra serrania,
Chamem-lhe embora falsa, feia e fria,
Mas é também fidalga e hospitaleira”

Assim falava na sua "Canção da Guarda”­ o poeta Júlio Ribeiro, nascido nesta cidade em 1872, sobre aque­le que em 27 de Novembro de 1199 por Carta de Foral de D. Sancho I já nasceu como cidade.
Vivia-se então o tempo de povoar as terras con­quistadas aos Sarracenos. As fronteiras estavam próximas e a Guarda tinha o efeito de atalaia sobre os invasores, dominando os movimentos desde a raia com Castela, até aos vales do Mondego e Zêzere, às longínquas terras de Idanha, aos contrafortes das Serras da Estrela, Marofa, Cara­mulo, Lapa, Pisco ou Malcata, às distantes terras transmontanas... até onde olliar alcança dos seus 1056 metros de altitude. Reforçou a sua impor­tância em finais do século XII a transferência do Bispado da Egitânia (hoje ldanha-a-Velha), perto de Castelo Branco e Monsanto.
Das alturas do seu castelo - de que resiste ape­nas a Torre de Menagem - podem avistar-se uns tantos castelos e fortalezas que teriam na cidade sanchina um pólo ou eixo principal: Almeida, Pi­nhel, Trancoso, Celorico da Beira, Jarmelo, Sabugal, Vilar Maior, Sortelha, Belmonte, Monsan to e umas não sei quantas atalaias e torres de que Codeceiro é um dos exemplos.
A Guarda foi uma terra de amores desde o seu berço. Aqui nasceu a Cantiga de Amigo que D. Sancho I dedicou à sua Ribeirinha, D. Maria Paes Ribeiro. "Ay muito me tarde / o meu ami­go na Guarda".
Por aqui terão passeado os amores de Pedro e Inês nesse deambular que levou à sua secreta união, tendo como bastião a antiga fortaleza e campos do Jarrnelo, terra-pátria de Diogo Lopes Pacheco, um dos assassinas da rainha que o foi depois de morta.
Um dos bispos da Guarda, familiarmente li­gado aos "actores" do mais belo romance de amor lusíada está perpetuado através do seu brasão num pequeno portal gótico da Catedral Egita­niense, num ângulo formado pela nave cruzei­ra e pela absidiola da Epístola.
Foi D. Luís da Guerra, bisneto de D. Pedro e D. Inês de Castro e neto do Conde de Andeiro, por parte de sua mãe, D. Teresa, que terá go­vernado a diocese Egitaniense de 1428 a 1458, não sem algumas contendas com o Cabido.
No matizado da sua História, a Guarda recor­da nas velhas casas da Judiaria o povo de passo apressado, vestido de escuro, inclinado a cami­nho da Sinagoga, intimado nos seus sabes, costumes e mesteres, nas artes e ofícios, que fi­zeram progredir a cidade e a região mas que os efeitos nefastos do Santo Ofício ou Inquisição le­varam á fuga, ao abandono das velhas ruelas es­treitas do bairro de S. Vicente, lançando a Guar­da para uma queda social e económica de que ja­mais se recuperou.
O Património Monumental é único, casado entre os vestígios pré-históricos dos castros en­volventes, das ruínas romanas de Mileu e seu templo românico, das calçadas romanas e me­dievais, dos cruzeiros, monumentais fontaná­rios, casas brasonadas e solarengas, Igrejas de São Vicente, Misericórdia, Bonfim, São Pedro, os largos, praças e terreiros, alguns deles irreme­diavelmente transformados, as velhas muralhas de alicerces anteriores à nacionalidade e por di­versas vezes acrescentadas, construídas e recons­truídas, os antigos conventos de Santa Cara e São Francisco, as Portas da Cidade - Torre dos Ferreiros, Da Erva ou do Sol, d'EI Rey o Postigo, - a Torre de Menagem do antigo castelo, o an­tigo Seminário datado de 1601 (um dos mais an­tigos da Europa), as residências nobres...
A Guarda foi desde início urna cidade marca­da pela influência eclesiástica e militar. Mantém-se a primeira dessa antiga herança. A militar de­sapareceu com a extinção do Regimento de In­fantaria nº 12, depois transformado em batalhão de Infantaria da Guarda e depois em destaca­mento do Regimento de Infantaria de Viseu.
Mas, irredutível, a Sé Catedral, gótica, monu­mental, grande. sumptuosa e sóbria na sua ar­quitectura granítica, merece o destaque de ex-li­bris da cidade mas também do pais.
Osório Gama e Castro refere-se à Sé na obra "Terra Sagrada - Guarda": "A Sé Colunas altas em procura do firmamento azul que Deus ha­bita". Demorou mais de século e meio a erguer (1390 a 1540), desde o reinado de D. João I a D. Manuel, é de medianas proporções, tem 52 metros de comprimento e 32 de largura na nave cruzeira.
Palco de lutas e feitos históricos e militares, conheceu os horrores das Invasões Francesas, das Lutas Liberais que trouxeram D. Migue1 a re­fugiar-se no pequeno povoado de Ramela, no concelho da Guarda, as contendas e lutas que le­varam à implantação da República.
A frieza do seu clima foi inspiração para Au­gusto Gil escrever a sua Balada da Neve "batem leve, levemente...", mas também a José Augus­to de Castro, Adriano Vasco Rodrigues, Vergílio Ferreira, Eduardo Lourenço, Joaquim Andrade, Nuno de Montemor, Antero Marques, Abílio Bo­nito Perfeito, João Coito... e tantos outros.
Em 1907, ganhou o epíteto de Cidade da Saú­de ao aqui ser inaugurado por D. Carlos e D. Amélia, o Sanatório Sousa Martins, patrono com fama de santo que aqui tem um dos seus locais de "culto".
No limiar do século XXI, a Guarda assume-­se como porta de entrada da e na Europa dos 25, aspirando por um desenvolvimento integrado onde a Plataforma Logística de Iniciativa Empre­sarial, a Área Industrial e o Turismo desempenham um papel primordial associados ao património, gastronomia e paisagem.

 
 
 
 
Assim o queiram as gentes da Guarda!
 
     
     
 
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  Roteiro das Marcas Mágico-Religiosas no Centro Histórico Guarda  
     
 
 
 

Mais de oito séculos de História encerram, na Guarda, uma valiosa herança patrimonial, resultante de uma pluralidade cultural e religiosa só possível pela tradicional convivência me­dieval entre cristãos e judeus. Escondidos nas ruas estreitas ­da cidade existem pormenores únicos da arquitectura civil e militar e também marcas de um património para muitos desconhecido e que passa despercebido ao olhar menos atento.

 
     
 

Lançamos neste roteiro o desafio de viajar pelo mundo das Marcas Mágico-Religiosas existentes no Centro Histórico, procurando levar o visitante a descobrir um conjunto de gravações na pedra que souberam resistir ao passar do tempo.            ­
Na Guarda, no espaço intra-muros e ruas adjacentes, a Simbolo­gia Cruciforme impera fazendo-se acompanhar, por vezes, de datas e anagramas religiosos que merecem especial referência pelo seu valor patrimonial e estético.
Sem querermos avançar com uma explicação única para a existên­cia deste património, apontamos alguns factos históricos que poderão conduzir à sua compreensão.
Sabe-se que a Guarda acolheu uma comunidade judaica a partir do séc. XIII, a qual cresceu, quer com as perturbações e perseguições aos praticantes da Lei Velha acontecidas do outro lado da fronteira durante o século XIV, quer com a expulsão destes de alguns reinos de Espanha no final do século XV.
Estabelecida a Santa Inquisição em Portugal durante a 1ª metade do século XVI, cedo se iniciaram as perseguições sistemáticas que vi­savam tornar o país numa nação liberta dos judeus e das suas crenças e práticas. Foi neste contexto de perseguições que os praticantes da Lei Velha foram forçados à conversão ou à fuga.
Aos convertidos é atribuído, por vezes, o nome de Cristãos-Novos, os quais, para demonstrar a sua adesão ao novo credo podem ter marcado nas ombreiras das suas casas símbolos cruciformes. Outros, recusando-se à conversão, optaram pela fuga, abandonando as suas casas, posteriormente, ocupadas por famílias cristãs que, através da marcação de cruciformes, podem ter procurado a purificação e a sacrali­zação de um espaço, anteriormente, habitado por judeus. Refira-se ainda que a Idade Moderna foi um período de exacerbação da fé Católica, o que poderá ter conduzido os crentes a exteriorizar a sua fé através da gravação da Cruz entendida como expressão paradigmática dó crença Deus único, Cristo crucificado.
Outros elementos de simbologia mágico religiosa pode o visitante vislumbrar no desenvolvimento do roteiro que lhe propomos. Tratam-se de marcas abertas na pedra que, tal
como os cruciformes, possuem uma poderosa carga simbólica. Referimo-nos agora aos Ras­gos Longitudinais e à Marca na Mezuzah, a qual releva, exclusi­vamente das práticas religiosas hebraiconudaicas, cumprindo a obrigação religiosa de marcar nas portas e portões das casas o testemunho simbólico da adesão à religião monoteísta do Antigo Testamento.
O Centro Histórico da Guarda é um espaço único e merecedor de especial atenção. Por aqui a dureza do granito foi transformada em obras de arte pelas mãos experientes daqueles que souberam perpetuar a História e as Estórias que hoje em dia são a Memória desta Cidade.

 
 
 
     
 

Marcas na Mezuzah

 
     
 

O texto do Shemá Israel é uma das orações fundamentais do povo judaico. Constitui uma afirmação do culto monoteísta, que manda recordá-lo a cada momento da vida e procura evitar o seu esquecimento por diversas formas, nomeada­mente, pelo dever do crente em escrevê-lo nas ombreiras das portas da sua casa. A obrigação de marcar na Me­zuzah, palavra hebraica para ombreira de porta, a adesão ao culto monoteista judaico, pode explicar a identificação de con­cavidades de cerca de 10 cm de altura e cerca de 2 em de largura e outros tantos de profundidade nas ombreiras das portas, geralmente, na jamba direita a cerca de 2/3 de altura a partir da soleira da porta. Estas concavidades destinavam-­se a abrigar, completamente ou não, um estojo que continha no seu interior um pequeno rolo de pergaminho em que se escreviam, de forma ritual, as palavras de Dt6,4-9;11, 13-21, excertos de dois Livros do Antigo Testamento. Para denominar este artefacto religioso, utiliza-­se comummente a designação de Mezuzah.
A Mezuzah continua hoje a apresentar-se, entre outros artefac­tos como um poderoso símbolo identificativo e muito comum numa casa judaica, manifestando-se não só, como o elemento material que lembra a cada família as características do seu Deus mas, simbolizando também a protecção divina dispensada por Deus à Família e Casa judaica.

 
     
 

Os Cruciformes

 
     
 

A cruz é um símbolo mágico/religíoso cuja emer­gência, no tempo é difícil de apontar com rigor mas que, foi apropriada por diversas religiões não monoteístas e monoteístas. O seu uso é an­terior a Jesus Cristo e possui, portanto, um significado que ultrapassa a religião cristã. Ainda assim, parece não haver dúvida de que foi o Cristianis­mo (após o século IV e devido ao sonho premonitório do Imperador romano Constantino), que se apoderou da Cruz como símbolo identificador da morte de Crísto crucificado. Mas, mais do que um símbolo representativo do ponto de vista religioso e católico, a marcação de uma cruz possui foros de prática quase mágica, granjeando para pessoas, espaços e artefactos, a protecção do mundo sobrenatural.
É possível identificar este tipo de marcas tanto em espaços rurais, como urbanos, em imóveis de arquitectura civil (de uso habitacional e artesanal), religiosa e militar.

Ainda que, registando-se estas marcas fora dos espaços urbanos, a existência de cruciformes gravados em ombreiras de porta e fachadas de edifícios parece ser um fenómeno, maiorita­riamente, urbano. Regista-se aqui, preferencialmente, nas zonas mais antigas e de tradição medieval das povoações. Contudo, o fenómeno não é característica exclusiva de imóveis datáveis de época medieval, identificando-se também cruzes gravadas em om­breiras de porta em edifícios cuja traça arquitectónica remete a sua construção para os séculos XVI, XVII e XVIII ou até para o século XIX. Neste contexto a gravação de uma cruz pode ser entendida na perspectiva vasta e genérica de acto de sacralização de um espaço tido como herético, em consequência de uma ocupação anterior por membros de um credo religioso minoritário, como fo­ram os judeus. Pode também ser interpretada como resultando da vontade ou da necessidade de mostrar objectivamente a adesão a um credo religioso.
 
     
 

Os Rasgos Longitudinais

 
     
 

Este género de marcas é constituído por rasgos abertos na pedra, com uma orientação, tendencialmente vertical, po­dendo atil'1gir uma profundida­de de 5 em e um comprimento que pode oscilar entre os 10 e os 50 em. Apresentam-se iso­ladamente (um único rasgo), ou num conjunto de vários rasgos. Quando se registam nas ombreiras das portas pa­rece não existir preferência pela direita ou pela esquerda, sendo o mais comum registarem-se em ambas. Verifica-se ainda que são identificáveis tanto em imóveis que tiveram um uso habitacional e artesanal, como em edifícios de arquitectura religiosa e militar.
Para a explicação deste fenómeno tem sido levantada a hipótese das necessidades do trabalho artesanal e em algumas povoações são interpretados pelos habitantes como resultando da necessidade dos sapateiros afiarem as suas sovelas. Noutras localidades, são explicados como consequência do afiar das espadas dos soldados. Contudo, a nosso ver, outras abordagens devem ser tidas em linha de conta, dado o tipo de imóveis em que estes se podem identificar. Assim, consideramos que, por detrás desta prática pode estar um ritual de carácter mágico/religioso continuador da velha prática hebraico/judaica de marcar nas ombreiras das portas a adesão a um culto e de, paralelamente, recolher para e interior do espaço construído alguma forma de protecção divina
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  O Urbanismo e a Arquitectura no Contexto Judaico  
     
 
 
     
 

Embora a Judiaria da Guarda não apresente grandes diferenças de traçado urbano relativamente ao restante núcleo medieval e espaço intra-muralhas, encontramos, no entanto, características que o identi­ficam e o individualizam da restante área do Centro Histórico.
A implantação dos edifícios e o traçado dos arruamentos apre­sentam-se com uma estrutura irregular e descontínua ladeada por uma malha medieval com um traçado mais ortogonal e racionalista.
Verifica-se uma grande compactação urbana, com construção em banda. As ruas ganham um traçado irregular, sem grandes pontos de vista onde as fachadas dos imóveis criam movimento e ondulação entre os seus planos.
No campo da arquitectura, podemos constatar que os imóveis possuem uma planta de base trapezoi­dal onde impera a sobriedade, a robustez, a escala modesta, o recorte das portas e janelas por molduras rectilíneas e o predomínio das paredes em prol dos vãos, entre os quais não existe relação. São na maioria de um ou dois pisos, em alvenaria de granito e vãos assimétricos que transmitem maior dinamismo. A sua ocupação interior distribui-se: habitação no andar superior e comércio no r/chão.
A maioria das casas referenciadas possui portas com ombreiras e tosas biseladas de configuração rectilínea e em dois casos em abóbodas de berço. No respeitante aos vãos das janelas estes assumem uma dimensão pequena ou média e apresentam na maioria das vezes entre si decorações diferentes, com irregularidades, sem repetitividade e sem alinhamentos na sua distribuição, em termos de fachada.
Estes imóveis possuem uma arquitectura orgânica onde a assimetria, a dissonância e a tridimensio­nalidade antiperspectiva é preponderante e indiscutível.

 
     
     
 
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  Rua Dr. Sousa Martins  
     
 
 
     
 

O nome do médico Sousa Martins está associa­do à Guarda desde o início do século passado, mercê da estrutura sanatorial que existiu nesta cidade. A toponímia guardense consagra, igual­mente, a memória deste vulto da medicina por­tuguesa, numa das ruas do moderno Bairro da Senhora dos Remédios.
José Tomás de Sousa Martins nasceu em Alhan­dra, a 7de Março de 1843, no seio dê uma fa­mília com escassos recursos económicos.
Órfão de pai, aos sete anos, foi com a idade de doze trabalhar. Como praticante para a Farmácia Ultramarina, em Lisboa, propriedade de um tio seu, Lázaro Joaquim de Sousa Pereira.
Frequentou o Liceu Nacional de Lisboa e a Es­cola Politécnica; com aulas de manhã, traba­Ihava de tarde na farmácia e à noite dava ex­plicações de forma a conseguir receitas para as despesas inerentes à sua formação académica. Concluído o curso de farmácia, em 1864, con­tinuou a frequentar a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, terminando o curso de medicina aos 23 anos, em 1866; foi sempre sempre um aluno distinto.
Eleito, em 1868, sócio da Sociedade de Ciên­cias Médicas, em 1872 Sousa Martins leccionava já na Escola Médico-Cirúrgica, onde viria a reger as cátedras de Patologia Geral, Semio­logia e História da Medicina; exerceu actividade clínica no Hospital de S" José, em Lisboa, numa época em que a tuberculose ceifava anualmente milhares de vidas.
Sousa Martins, num relatório datado de 1880, fez a caracterização da tuberculose, nessa épo­ca. "Esta devastadora doença reparte com sur­preendente equidade os seus malefícios por ambos os sexos; não respeita idades, embora mostre cruel predilecção pela puberdade e idade viril; ceva-se nos temperamentos Iymphaticos, sem desdenhar os outros temperamentos; prefe­re as constituições debeis, posto que se atreva a acommeter, e mesmo a prostrar, constituições vigorosas" .
Aquele clínico acentuou a importância da cria­ção de sanatórios, na zona da Serra da Estrela, sustentando que "se os 15.000 tísicos que, no nosso país morrem anualmente, pudessem ir e receber, a tempo, o tratamento da Serra da Es­trela, Portugal ganharia por ano mais de 2000 vidas". Em 1881 a Sociedade de Geografia de Lisboa promoveu uma Expedição Científica à Serra da Estrela, a qual foi integrada, entre ou­tros, por Sousa Martins. Dessa iniciativa resultou a elaboração de relatórios das várias secções científicas, que aparecem compilados num vo­lume intitulado "Expedição Científica à Serra da Estrela" e, dois anos depois, o livro "Quatro Dias na Serra da Estrela", da autoria de Emídio Na­varro. Esta expedição teve o mérito (e sobretudo através da determinação de Sousa Martins), de chamar a atenção dos meios científicos e clíni­cos para as condições que a região oferecia no tratamento da tuberculose.
Sousa Martins defendeu a implantação de Casas de Saúde nesta zona, impulsionando a fundação, em 1888, do "Club Herminio", uma associação de carácter humanitário que se manteve durante cerca de quatro anos; o conceituado fisiologista foi aclamado, pelos membros fundadores, sócio honorário e presidente perpétuo desta instituição de solidariedade. O "Club Herminio" tinha por fi­nalidades promover directa e indirectamente "o melhoramento das condições naturais da Serra da Estrela, considerada como estação sanitária" através do estabelecimento de casas de saúde sob direcção médica", o socorro aos doentes mais necessitados do ponto de vista financeiro, e o exercício de "policia hygienica em todos os pontos da Serra e nas habitações".
Ainda em 1888, e correspondendo aos argu­mentos de Sousa Martins e de Guilherme Teles de Meneses, o médico Basílio Freire, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, instalou-se na Serra da Estrela, no Ve­rão desse ano, onde assegurou consultas gratui­tas aos doentes que o procuravam.
Os esforços que Sousa Martins desenvolveu, fortalecidos pelas suas esclarecidas convicções, em muito contribuíram para a construção do Sa­natório que viria a ter o seu nome, perenemen­te ligado à mais alta cidade de Portugal; para a Guarda vieram milhares de doentes que procu­ravam aqui a cura desta doença infecto-contagiosa provocada pela micro-bactéria conhecida por "bacilo de Koch".
A Rainha D. Amélia materializou no sanatório guardense (o primeiro a ser construído pela ANT, inaugurado a 18 de Maio de 1907) a homena­gem a Sousa Martins, atribuindo a esta institui­ção o nome daquele clínico, cuja acção e dina­mismo ela tinha já evocado numa intervenção pública da Associação Nacional aos Tuberculo­sos, realizada em 1889. Sousa Martins, refira-se, tinha falecido dois anos antes, em Alhandra, no dia 18 de Agosto de 1897, depois de ter sido atingido pela tuberculose.
O Rei D. Carlos comentaria que se tinha apaga­do "a mais brilhante luz" do seu reinado. Guer­ra Junqueiro, referindo-se à personalidade de Sousa Martins, escreveu que ele se deu "como o Sol dá a luz, aos miseráveis, aos tristes, aos sonhadores. Foi o amigo carinhoso e cândido, dos pobres e dos poetas, A sua mão guiou, a sua boca perdoou, os seus olhos choraram. Te­ve sorrisos para a graça, enlevos para a arte, lá­grimas para a dor"'-
Na Guarda não têm faltado pessoas que apon­tam Sousa Martins como o autor de autênticos milagres, na linha de uma devoção popular que se manifesta, objectivamente, em Lisboa (no Campo de Santana) ou em Allhandra. O singelo monumento que se ergue dentro dos muros do ex-Sanatório da Guarda continua, diariamente, a ser alvo de preces e agradecimentos, apresen­tando-se quase sempre emoldurado de flores e envolvido em manifestações materiais de agra­decimentos.
Apesar de não ter legado muitas publicações, Sousa Martins deixou atrás de si várias gerações de médicos, uma Escola Clínica e, sobretu­do, um verdadeiro exemplo de doação à socie­dade e à Medicina. Fez parte de muitas organi­zações científicas, nacionais e internacionais.
A Guarda não esquece, na sua toponímia, o ho­mem, o médico e o cientista cujo nome foi dado a um dos mais destacados sanatórios de altitu­de, que projectou esta cidade dentro e fora das fronteiras nacionais.

 
 
 
 
Hélder Sequeira
 
     
     
 
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  Judiarias - Os "Guettos" Medievais  
     
 

Judiarias: Pedras enegrecidas, ruas sinuosas quebrando as cidades e vilas,  casas simples carregadas de história  e memórias de um povo, o Hebreu, num tempo que passou já levando costumes, vida e pedaços de cultura.
Este pode ser o retro rápido das Judiarias, bairros fechados dos judeus,antigos burgos de residência hebraica, apartados das gentes cristãs, desde tempo recuados.
Com estilo próprio, sóbrio e pouco variado, são conjuntos urbanos que demarcam a presença de um povo querido por uns, odiado e cobiçado por outros. Caracterizam-se por uma linha estilística, em grande parte dos casos, que é semelhante à casa tipo “portuguesa”, térrea ou de um andar, construída à base de granito.

As ruas estreitas são sinal dos tempos medievais que lhes deram vida e onde, segundo alguns autores, circulava toda a vida económica e por vezes cientifica das cidades e vilas.
Chamavam-se “ do Amparo”, “Nova”, Direita”, “de Santa Maria”, “dos Pelames ou das Peles”, dos “Peleteiros”, “dos Oleiros”, “dos Sapateiros”, “dos Ferreiros”..., nomes que ainda subsistem e testemunham velhas actividades artesanais, mesteres e artes. Algumas resistiram ao tempo e á técnica e são ainda visíveis.

As Judiarias, conhecidas também como “guettos”, eram bairros apartados, situados geralmente junto das saídas das povoações, das portas das muralhas. Tinham regras impostas, costumes forçados por determinação real. razões económicas, sociais, religiosas e étnicas terão determinados as Leis por que se regeram durante séculos.
Tinham os seus terreiros e fontes, sinagogas e escolas, residências, oficinas e comércios.

Na Guarda, cidade onde a Comunidade Judaica medieval foi importante desde os alvores da sua fundação em 1199 e posteriormente os “Cristãos-Novos”, desenvolveram grande actividade, existiu uma dessas Judiarias.
Situava-se junto das muralhas de Dom Sancho I, na Freguesia de São Vicente, sendo a mais antiga a que situava na zona da Rua do Amparo, Rua Nova, Largo de São Vicente, perto da Porta d’El Rey, que dava de imediato para uma das vias que serviam a cidade.
Tal como outras Judiarias, possuía portas ou portais que todos os dias se fechavam após o toque das Trindades para se abrirem de novo depois do “Angelus” ou Matinas nas torres da Catedral ou de uma qualquer igreja , neste caso da Igreja de São Vicente.

As casas eram simples: rés-do-chão onde se instalava a actividade profissional, com acesso por uma porta larga ; o primeiro andar ( quando existia) era a residência para onde se entrada por uma porta estreita.Por cima desta aparecia às vezes um pequeno postigo de iluminação da escadaria, mas também ligado a tradicionais superstições.
Este pode considerar-se o estilo típico da Casa Comercial Hebraica da Guarda, também visível em Trancoso, Celorico da Beira, Covilhã, Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Monsanto, Fundão, Meda, Marialva, Foz Côa, Castelo Novo, Alpedrinha, Sabugal, Gouveia, Linhares da Beira, Melo, Folgosinho, Penamacor, Almeida, Castelo Rodrigo, Freixo de Numão, Freixedas, Pinhel e tantas outras vilas e cidades da Beira como Viseu ou Lamego.

Os Judeus viviam condicionados nestes bairros, onde eram “propriedade do rei” que os protegia e impunha regras de vida.
Na Guarda, uma inscrição num portal de uma habitação judaica dia, na Rua Nova e largo conhecido por “dos Judeus” : “por Foro Del Rey”, isto é, que os Judeus ali viveram por ordem real. Pertence ao piso inferior da casa conhecida na Guarda por “Tribunal dos Judeus”.
Pelo seu poder económico, cultural e cientifico, pelo conhecimento das artes e ofícios e apesar  das muitas hostilidades no tempo, os judeus também conhecidos por “Gente de Nação”, eram acolhidos pelos reis que os chegaram a colocar em lugares de destaque na hierarquia do Estado.

Perseguidos pelo “Santo Oficio”, pelos cristãos e leis régias, muitos converteram-se, forçadamente,ao cristianismo  a partir do século XVI .Outros, fugiram para outras terras e países, levando consigo o que de melhor tinham e podiam: a arte, a inteligência, o dinheiro, o saber, o espírito, a cultura e a ciência.

Para alguns estudiosos, a expulsão dos Judeus de Portugal em 1496 e as perseguições a partir do reinado de Dom João III, levaram à ruína muitas terras ou a pararem no tempo no caminho do progresso. A Guarda, Viseu, Covilhã ou  Pinhel foram disso exemplo.

Restam hoje as Judiarias e, nas Beiras, comunidades mais ou menos dispersas, com práticas de culto que permanecem ainda no íntimo familiar, como em tempo de perseguição se fazia. Sinais de abertura surgiram entretanto um pouco por toda a Beira: As comunidades abriram-se ao exterior, surgiram na Guarda as Associações “ Judaica Rosh Pinah” (Pedra Angular) e “ de Amizade Portugal-Israel”. Esta última organização foi fundada pelo subscritor destas linhas mas também pelo historiador Adriano Vasco Rodrigues, por Sam Levy, Álvaro Estêvão, José Luís Nunes, pelo conselheiro da Embaixada de Israel, Itzhak Sarfaty, Manuel Madeira Grilo, entre outros.Belmonte viu organizar-se a sua comunidade e construiu a Sinagoga.

As judiarias são hoje elemento de atracção turística pelas suas características arquitectónicas, históricas e documentais.
De facto, nos ombreais das portas das Casas Judaicas, as cruzes insculpidas testemunham a cristianização forçada. Por vezes eram os próprios Judeus que as inscreviam  mostrando-se exteriormente convertidos. Na verdade, interiormente, as orações dirigiam-se a “Adonai” e os gestos continuavam os mesmos que gerações sucessivas devotaram á lei de Moisés.

Numa casa da Rua Rui de Pina, na Guarda, é curiosa a inscrição que representa, ao meio, a Cruz de Cristo e, de ambos lados, outras menores, talvez o Bom e o Mau ladrões.
Estas cruzes eram apostas no local onde regra geral o Judeu aplica a sua “Mezuzah”, espécie de amuleto que contém um pedaço da Lei Hebraica e que protege o edifício, quem o habita e suas ocupações. A “conversão” levou a que a comunidade se espalhasse e por isso outros símbolos cruciformes se encontram em outras ruas. Disso são exemplo as existentes na Rua da Paz, Rua Dom Dinis ou Rua da Freternidade.

Na Rua Dom Sancho I existe uma casa seiscentista que tradicionalmente é conhecida por “ Sinagoga e Casa do Rabi”. É hoje uma casa comercial de chaves. No seu interior uma porta gótica com inscrições e de entre elas três pontos que, se unidos, fariam um triângulo. Talvez quisessem significar “Deus” pois que , os Judeus Hispânicos, Sefarditas, não escreviam a palavra sagrada e simbolizavam-na com apenas três pontos.

Tal como na Guarda, outras Judiarias têm a sua história, seus valores e tradições, suas características próprias.

São monumentos silenciosos que escondem em si memórias de gente vestida de negro, barba crescida e guedelhas desenvolvidas, encaracoladas, chapéu preto e passo apressado: os Judeus da Beira.

 
     
 
José Domingos
 
     
     
 
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  O Colégio do Sagrado Coração de Maria e as “Lurdinhas”  
     
 
A Guarda do início do século XX era uma pequena cidade com cerca de 5 000 habitantes, cheia de comerciantes, funcionários públicos, militares e estudantes.
Da indústria quase não se podia falar, embora estivesse para nascer uma unidade fabril de grande relevo, não só para a Guarda, mas para o país: a Fábrica Patrício e Balsemão, no Rio Diz.
Mas, hoje não é desta importante fábrica que iremos falar, isso ficará para outro dia, mas sim da Guarda estudantil, e em particular, do ensino feminino.
Para os rapazes, havia o seminário, a mais antiga instituição de ensino da cidade, o liceu e alguns colégios, mas, para as raparigas, nada.
   
O Colégio de Nossa Senhora de Lurdes  
 

Face a esta situação, e porque já havia muitos pais que consideravam que as filhas deviam ser instruídas – meu bisavô era professor e no entanto não ensinou as filhas a ler e escrever, por pensar que a boa formação devia ser a necessária à de boas filhas e de futuras mães prendadas e versadas na culinária, nos bordados e na música – solicitaram, em 1904, ao arcebispo-bispo da Guarda D. Manuel Vieira de Matos, a sua boa vontade para a causa e criar uma casa onde de pudessem ministrar conhecimentos.
Este, sensibilizado para o problema, contactou o Instituto das Religiosas do Sagrado Coração de Maria, primeiro, e não obtendo resposta, o Instituto de Santa Doroteia, a seguir.

   
Com a oferta de casa adequada, de um “capelão gratuito” e a promessa do bom acolhimento das pessoas da cidade, a resposta da Associação de Santa Doroteia, foi positiva.
Havia agora, que encontrar casa adequada aos fins em vista, tarefa que não era nada fácil.
Enfim, alguém se lembrou do solar seiscentista, da Rua do Encontro, onde já tinha funcionado um hospital e onde hoje funciona a Casa Episcopal.
O edifício, com o seu grande quintal, era propriedade da baronesa de São João de Areias, filha do Dr. António Mendonça Falcão e Póvoas e irmã de D. Conceição Mendonça Falcão e Póvoas, grandes proprietários na Guarda mas também grandes no coração. Não é por acaso que a esta última, chamavam a mãe dos pobres.
   

Mal se tomou conhecimento na cidade, da ideia, formaram-se desde logo duas facções, ou não estivesse a Guarda profundamente politizada e sob grande influência maçónica. Uns denegrindo a iniciativa, outros, apoiando-a.
Mas, deixando estes aspectos, embora relevantes, certo é o que o Colégio abriu em 22 de Novembro de 1905, com uma comunidade de oito religiosas, de reconhecido valor, com a designação de Colégio de Nossa Sr.ª de Lurdes.
naugurada que foi a casa e a capelinha, as aulas tiveram em 30de Novembro, desse ano, com vinte alunas, entre internas e externas.
O curriculum escolar incluía para além da formação religiosa, uma componente artística e uma outra literária. Nesta última destacava-se, pela novidade, o ensino do inglês, já que, então era o “francês”a grande moda e a língua mais universal.

   
O sucesso foi imediato, tanto assim que em 1907, na festa de encerramento do ano lectivo, o coro escolar era constituído por cinquenta alunas.
No verão de 1910, tudo estava preparado para o recomeço das aulas, que deveria ocorrer no dia 7 de Outubro, só que, antes, no dia 5, dá-se a implantação da República.
No dia 6 de Outubro, tendo tomado conhecimento da revolução e da lei que proibia o uso público de hábitos talares, o toque dos sinos, as procissões e o culto religiosos, a comunidade decidiu dispersar e encerrar o colégio.
Mas, se o colégio fechou, as razões que tinham presidido à sua abertura mantinham-se. Aliás, era a própria República que propagandeava o ensino e a igualdade das mulheres mas, que na Guarda revolucionara era incapaz de abrir nova casa, com esses objectivos.
   

Novas Instalações

 
O problema foi-se arrastando e só em 1927, sendo então bispo D. José Alves Matoso, foi resolvido. D. José, pessoa culta, reconhecia a importância que um colégio de meninas tinha e que os “ares” políticos estavam a mudar, mas onde o instalar se ele próprio tinha ficado sem Paço e sem Seminário? Pôs-se a hipótese das anteriores instalações, onde já então estava instalado o Paço Episcopal, mas, como foi encontrada outra alternativa a ideia foi posta de lado.
A casa de D. Conceição Mendonça Falcão e Póvoas, a quem já atrás me referi, estava devoluta e era do melhor que havia e há, na Guarda.
Situada em pleno centro da cidade na Praça Velha, era um edifício muito grande, com capela privativa, inaugurada em 1908, e que é conhecido por Solar Póvoas.
Preparado para receber 80 alunas, em regime de internato e externato, o edifício teve que sofrer grandes obras de remodelação. Visando uma formação moderna, incluía os cómodos indispensáveis à educação física, o que era, então ainda uma faceta nova.
 
O Colégio do Sagrado Coração de Maria
 
Em 1949, o Colégio de Nossa Senhora de Lurdes muda de nome, não por ter ocorrido qualquer facto especial ou por ter havido qualquer mudança de orientação. É que, alteração houve, mas foi no Instituto das Religiosas do Sagrado Coração de Maria, que determinou que os colégios que detinha passassem todos a ter a mesma designação. Como sempre houve uma excepção, o do Porto.
O tempo corria, novas necessidades se faziam sentir e novas condições de ensino eram exigidas, e assim, o velho, mas ainda hoje maravilhoso Solar Póvoas, deixou de servir.
Atenta, a comunidade lança-se em novo projecto, cuja obra terá início em 1944, na Rua Soeiro Viegas.
Construído de raiz, de acordo com as mais modernas condições pedagógicas que à época se exigiam, era também, arquitectónicamente, um edifício que vinha dignificar a cidade.
A sua construção foi feita em duas fases. A primeira, inaugurada em Abril de 1950 e a segunda, com a sua bela frontaria, arcos e escadaria, em 1955.
Com um elenco de problemas notável e óptimas instalações, é claro que a procura que originou foi muito elevada. Ao anos de brilho iam-se sucedendo, mas como tudo na vida, também a do Colégio do Sagrado Coração de Maria foi efémera.
 
O Lurdinhas
 

Em 1972, passados que foram vinte e dois anos de vida laboriosa e profícua, chegou ao fim. A crise que o ensino particular atravessava em Portugal foi decisivo e com mágoa de muitos, as “lurdinhas, como, com tanta simpatia eram tratadas, mesmo depois da mudança de nome do Colégio, deixaram de se ver ruas da Guarda.
Com a sua característica farda – tinham duas – composta de sai azul, blusa branca com dois grandes botões – os faróis como elas diziam-, meias castanhas ou brancas, sapatos pretos e o seu célebre chapelinho redondo, eram, talvez por serem todas meninas, das figuras mais características da Guarda e alvo, é claro, dos outros estudantes.
Mas, se a instituição, Colégio do Sagrado Coração de Maria, fechou as portas, o edifício continuou a servir a cidade e as suas gentes. Escola do Magistério, Escola Normal de Educadores de Infância, ISACE, Escola Superior de Educação, Escola Superior de Tecnologia e Gestão, sede dos Serviços de Acção Social Escolar do Instituto Politécnico da Guarda, cantina, residência de raparigas e rapazes, um jornal e uma rádio, são instituições que lá funcionam ou funcionaram, o que mostra bem a qualidade da sua construção.
O relevo que o “colégio das lurdinhas” teve para a Guarda é indiscutível.
Quantas meninas poderam dessa forma estudar e vingar na vida? E quantos pais não viram realizados os seus sonhos e as bolsas aliviadas por poderem obter formação tão perto de casa? Não sabemos. Sabemos, isso sim, que é uma obra digna de todo o respeito e admiração e por isso merece ser lembrada.

   
 

Por: Francisco Manso

 
     
     
 
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  Um Microcosmo Citadino: A Judiaria Medieval da Guarda  
     
 

A presença judaica detecta-se na Guarda desde, pelo menos, o século XII. Nascia então o reino português, processo que se relaciona com a instituição desta localidade como sede de um concelho medieval e como local de residência de um bispo correspondendo à reorganização diocesana que acompanhou a Reconquista. Estas duas realidades constituíam importantes factores de dinamização do povoamento da Beira Interior, durante o reinado dos nossos primeiros monarcas, contribuindo para que a Guarda se afirmasse como importante centro da nova configuração do espaço regional.
A existência de uma comunidade hebraica aqui residindo permanentemente pode considerar-se mais um indício de uma certa complexidade da sociedade citadina, que a distinga de outras formas de povoamento, como eram as aldeias e quintãs imersas na ruralidade então dominante. Esta era uma sociedade urbana dividida internamente em diversos grupos atendendo sobretudo a critérios de riqueza material e de independência ou liberdade jurídica na condição pessoal dos indivíduos e das famílias, conforme nos descreve em pormenor o direito costumeiro registado no século XIII. Já então, como é de resto característico nas sociedades medievais, os judeus se integravam na vida da cidade sob o signo da separação e da diferença. Esta separação exprimia-se através de leis próprias regulando quer a sua vida comunitária quer a segregação religiosa e étnica de que eram alvo. No mesmo códice manuscrito onde se encontra transcrito o Costume da Guarda, e que traz as marcas de um uso inegável de vários séculos, encontramos copiada, por exemplo, uma lei atribuída ao rei D. Afonso III (I266?), sob a epígrafe "das usuras dos judeus". Este é um indício da importância do conhecimento deste texto jurídico para os juízes locais, a quem o códice se destinava, de cada vez que surgiam conflitos relativos à esfera de actividade específica que era o crédito, tradicionalmente reservada à minoria judaica. Indirectamente, a difusão local desta lei alerta-nos justamente para a importância da comunidade hebraica nesta cidade durante o século XIII.

Presentes desde muito cedo na Guarda, os judeus eram reconhecidos como comunidade separada, como sucedia nas restantes cidades e filas do país, devido à especial relação que mantinham com os reis. Protegidos como coisa sua e controlados mediante a atribuição de estatutos urídicos próprios e de mecanismos de auto governo através da instituição da comuna, os Judeus encontravam nessa relação privilegiada com a autoridade monárquica uma garantia de reconhecimento da sua diferença continuando a praticar a sua religião e a viver segundo costumes próprios. No caso da Guarda, pode dizer-se que esta especial relação de protecção estava igualmente inscrita no espaço físico da cidade.
Com efeito, vários contratos desde o século XIII informam que as famílias hebraicas habitavam um bairro cujos terrenos pertenciam aos monarcas, situado no interior das muralhas, nas vizinhanças da Porta chamada "d'EI-Rei" e da Igreja paroquial de S. Vicente. Através de um inquérito feito em 1395, levado a cabo por funcionários régios que assim procuravam informar-se do estado do património real e de quanto este rendia, podemos avaliar com bastante pormenor como era a judiaria da Guarda, quem ali vivia e que tipo de casas habitava. Este espaço foi então delimitado com precisão, através de marcos que se colocaram em vários pontos do espaço intramuros, constituindo assim uma espécie de "reguengo" urbano quase exclusivamente habitado por judeus. Também a famosa judiaria "do Olival", no Porto, foi demarcada de modo semelhante, em 1424. Uma breve caracterização da evolução deste bairro da antiga cidade da Guarda permite-nos uma aproximação à história da comunidade hebraica nos seus modos de vida durante o período final da Idade Média. O número de casas do rei ocupadas por judeus rondava, nos n finais do século XIII, uma trintena. Muitas confinavam ainda com terrenos vagos ou votados a outras ocupações, mas que foram posteriormente desaparecendo. A judiaria parece ter decrescido sobretudo ao longo das centúrias seguintes, englobando duas ruas principais e várias travessas e vielas. Na década de 80, falava-se assim de uma "judiaria velha" na Guarda, junto à referida Porta d'El-rei, mas também de uma "judiaria nova" que resultava do crescimento daquela, para norte e (para leste), envolvendo áreas contíguas cada vez mais próximas do Adro da Igreja de S. Vicente. Em cerca de um hectare, pequena superfície que os terrenos de propriedade régia totalizavam, viviam em 1395 cerca de oitenta e duas Ia famílias. O número de judeus ascendia já, segundo as autoridades concelhias, a uns duzentos a duzentos e quarenta indivíduos em 1465, atingindo nos finais desta centúria pelo menos uns trezentos e cinquenta moradores. A explicação para este acentuado crescimento do número de habitantes da judiaria no século XV encontra-se seguramente na imigração, sendo bem conhecidas as dificuldades crescentes das comunidades hebraicas no vizinho reino de Castela nesta época a política de acolhimento praticada por vários soberanos, sobretudo por D. Afonso V e por João lI na conjuntura que levou expulsão de que foram alvo em Castela. Segundo o cronista castelhano Andrés Ernáldez, teriam nessa ocasião entrado na eira vindos do reino vizinho cerca de 35 000 judeus. Como o espaço disponível permanecia restrito, pode dizer-se que a evolução do bairro judaico da Guarda se caracterizou por um continuo aumento da densidade habitacional, neste período final da Idade Média. A judiaria da Guarda constituía um pequeno mundo à parte, largamente autónomo em relação à vida da cidade medieval. Em primeiro lugar, devido à organização comunitária que tinha a sua expressão importante na existência da sinagoga, situada no coração do bairro judaico, em casa "com sua quinta" que também pertencia ao monarca e a comuna lhe arrendava. Não sabemos se esta primitiva sinagoga teria adjacentes os costumados banhos, como sucedia noutras judiarias portuguesas. Mas na Guarda havia também um mercado ou "açougue" próprio dos judeus, ou seja um mercado diário chamado (semelhante ao souk da cidade islâmica, de onde lhe vem o nome), por vezes denominado "carniçaria" uma vez que nele se vendiam carnes dos animais para consumo, abatidos segundo os preceitos religiosos hebraicos. A área ocupada por esta estrutura de uso colectivo parece apontar para a existência de várias tendas, em certo contraste com a modéstia mais normal destes "açougues" noutras localidades, ás vezes simples alpendres com duas ou três ficas de venda. O pão, por sua vez, era moído na própria da judiaria da Guarda, situada num complexo de casas térreas com dois largos portais e igualmente confiada a um membro da comunidade. A história da Praça de S. Vicente enquanto espaço de coexistência e de disputa simbólica "entre as duas comunidades religiosas é reveladora das crescentes dificuldades na delimitação de espaços de uso público de onde fossem: excluídos os judeus da Guarda. Devido a razões de ordem topográfica mas sobretudo ao referido crescimento populacional da comuna, o bairro judaico dispunha de dois acessos principais: a Porta d 'EI- Rei e a Praça onde se encontra a Igreja de S. Vicente. Desde os finais de Trezentos algumas famílias hebraicas de maiores posses arrendavam casas situadas na Praça, frequentando o local e o Adro da Igreja de modo contínuo, o que suscitou alguns protestos por parte do bispo. Tudo sugere, com efeito, que este largo se transformava então num espaço partilhado entre cristãos e judeus, lugar de um convívio regular embora nem sempre fácil, sendo uma possível área de expansão para o apertado bairro judaico. A judiaria não dispunha, tanto quanto nos é dado saber, de praças ou largos de certa dimensão, pelo que a utilização da Igreja paroquial contígua, onde também havia algumas tendas e alpendres de uso comercial, era perfeitamente natural.

O "encerramento" da judiaria da Guarda, ou seja a sua transformação em ghetto fisicamente delimitado e dotado de portas que se abririam apenas para a necessária actividade do dia-a-dia, encerrando-se depois do sol-posto, foi da objecto de uma decisão régia tomada nas Cortes de 1465. Igual medida havia já sido adoptada as em outras localidades do reino, num movimento de crescente definição espacial dos bairros judaicos acompanhando os processos de estruturação de relações de definição mútua em grande parte baseadas na diferença religiosa e, em práticas violentas de exclusão. O caso da vizinha Ciudad Rodrigo é em tudo semelhante: A seguindo ordens régias de 1412, a judiaria surgia já delimitada por uma cerca em 1444. No entanto, ainda em 472 aí viviam uns escassos cristãos, inclusive junto à sinagoga local. Em situação inversa, duas dezenas dos mais ricos vizinhos da comunidade judaica também viviam da fora do espaço delimitado da judiaria de Ciudad Rodrigo, situação que parece já não se verificar em 1486. O pedido apresentado pelos procuradores da Cidade da Guarda a estas Cortes de 1465, apresenta-se como principal razão para mais esta segregação a presença assídua dos judeus no Adro de S. Vicente, onde como vimos alguns tinham casas, mencionando a actuação de alguns deles "volvendo as costas contra a cruz e dizendo outras torpidades" durante os ofícios religiosos que ali tinham lugar, por ser local de lnterramento de cristãos. Por outro lado, evoluiu-se a própria protecção dos membros da comuna, pois como o monarca reconhecia na sua legislação, "aos judeus eram feitos alguns danos de noite por assim as judiarias não serem cerradas". O rei decidiu então que se encerrasse o acesso directo da judiaria da Guarda ao Adro da Igreja, abrindo-se uma porta noutro local, a expensas da própria comuna judaica. Desde os finais de Trezentos, assaltos rituais às judiarias estavam muito fundidos nas regiões orientais e meridionais da Península, movimento que se estendera a Castela e veio a fazer-se sentir também no reino Português com os primeiros assaltos aos bairros judaicos, que tiveram lugar justamente no reinado de D. Afonso V.

A organização da comuna tinha no rabi o seu principal representante. Através dos elementos disponíveis sobre o bairro judaico, podemos avaliar a sua preeminência no seio da comunidade da Guarda - muitas das melhores casas da judiaria nos surgem habitadas por rabis, como casas de um certo rabi David, situadas junto à muralha da cidade e com varandas adjacentes a, importante marco arquitectural que servia referência deste espaço nos fins do século V. Mas a comuna também incluía outros is, correspondendo a outros tantos papéis cruciais de certo prestígio na comunidade. A actuação legislativa dos monarcas promoveu o período final da Idade Média um certo paralelismo entre os mecanismos de auto governo das comunas judaicas e os dos concelhos, inserindo ruelas numa hierarquia de diversos agentes que terminava no rabi-mor, representante máximo das comunas na própria Corte. O sistema tinha vantagens para o próprio rei, sobretudo de natureza fiscal uma vez que tornava a banca de tributos e impostos extraordinários mais fácil e expedita. Do ponto de vista das comunidades hebraicas, os ofícios do governo, as comunas parecem ter desempenhado funções de relativa importância, uma vez que permitiam aos mais ricos e influentes membros da comunidade assumir certas marcas de estatuto social e papéis de autoridade. No entanto, este sistema talvez se revelasse pouco adequado ao crescimento das comunidades pela inclusão de forasteiros, baseando-se na eleição e provavelmente, como sucedia pelo menos em Lisboa, numa certa tendência hereditária e consequente concentração de certos ofícios nas mesmas famílias. No caso da Guarda, conhecemos pelo menos uma conjuntura de crise relacionada com a eleição dos oficiais da comuna, na segunda metade do século XV, que parece indicar-nos serem estes cargos menos apetecíveis do que poderia parecer e o seu desempenho tido como uma sã obrigação a que alguns procuravam furtar-se. É entre as elites da Guarda judaica, que nos são melhor conhecidas do que os comuns membros da comuna, que se desenham igualmente certos a movimentos de colaboração e parceria com os cristãos. Detectam-se vários negócios comuns envolvendo membros de ambas comunidades, tanto lícitos, como até ilícitos. O "descaminho" e ou contrabando de certos produtos defesos envolvia assim, no século XV, vários mercadores os almocreves cristãos, mas igualmente o rabi da Guarda. O arrendamento da cobrança de impostos e tributos, como sucedeu com as feiras da Guarda em 1435, atraíram a parceria de homens de negócio judeus, como Jacob, com cristãos como o escudeiro Luís Gonçalves, que fará parte em meados do século vereação da cidade. Alguns judeus ricos obtinham igualmente a isenção de encargos da comuna a pedido de famílias importantes da Guarda, como os Pinas, indiciando o estabelecimento de típicas relações de clientela. Todos estes factos parecem apontar para a construção de solidariedades e redes de relações que volviam e integravam em especial certos tratos da comuna na sociedade local. Tradições de relacionamento que certamente riam a ser de novo mobilizadas após a expulsão definitiva dos judeus no reinado de D. Manuel, influenciando a conversão de muitos e o surgimento de uma importante comunidade de cristãos-novos na cidade. Desaparecida delimitação espacial do seu bairro e a segregação de que eram alvo enquanto judeus, encerrada a sinagoga, perdida a protecção real e a dimensão comunitária do seu viver sujeito a leis e costumes próprios, pode dizer-se que também a judiaria da Guarda deixou de existir após os derradeiros anos do século XV.

Rita Costa Gomes – in Guarda, Historia e Cultura Judaica
 
     
     
 
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  A Guarda, o Farnel e o 1º de Dezembro  
     
 

Falar da Guarda, sem que a saudade passe uma demão a afagar tempos e pessoas, é tarefa árdua a que renuncio.
Mea culpa! É com este sentir que teço as palavras para dizer um mundo que ganhou, à distância, tons e contornos inesperados. Fez-se nova a vida dos anos 50 -inícios de 60 na Guarda! Obriga-me a verdade da razão a não esquecer os que, então, palmilhavam a cidade arrastando uma pobreza pobre e um frio muito frio sofridos, juntamente com o peso (insustentável!) das convenções.
A emoção fala-me outra linguagem: revela-me a irreverência inocente com que se saboreava a contestação a modelos cujo selo de longevidade se queria/cria eterno. Vivia-se o desafio de poder/saber dos jovens que não renunciavam à Juventude. Corriam o risco de ser imprudentes, inconvenientes, resistentes impenitentes aos trilhos e espartilhos construídos por gerações e gerações e, por isso, devidamente alicerçados, firmes, inalteráveis. Era a tranquilidade, a quietude, a... pasmaceira, quando se tinha quinze anos e o "rock", acabadinho de sair, desafiava para a dança e a mudança.
Não era fácil. Aconselhava a prudência a perpetuar o tempo e o uso de farpela modelada para perpetrar nos jovens o ar sensato, avisado, orgulho e prova provada do bem-estar das instituições. A evidência saltava para a rua no de Dezembro. Ei-los!

Um grupo instalado na alavanca do sucesso caseiro, imediato, vem mumificado em verde seco castanho, outonal, conforme a um crescer! envelhecer prematuro. Alinha palavras "cantando e rindo...", de um hino que fala de um "... sonho lindo...", que não sabe. Traz bandeiras e estandartes e a simpatia dos donos desse tempo. São a Mocidade Portuguesa. Deram alguns em louvaminheiros, veneradores, atentos e muito obrigados a tudo e a todos, sempre receosos de qualquer contaminação contestatária.
Mas aquele era o tempo em que muitos medos guardavam o comportamento, que a vida não era fácil e estudar custava os olhos da cara. Os transportes eram poucos, as estradas um Deus me acuda!, os refeitórios um sonho adiado. Por isso, na cidade, havia casas que se multiplicavam em espaços para albergar estudantes e alimentá-los. Umas tantas dezenas de escudos chegavam para custear o quarto, ocupado com outros companheiros de sorte; o pagamento essencial era em géneros: da aldeia, da quinta, traziam o que as terras davam, para matar fomes, em mesas de aprendizagem do valor da partilha. Estudavam ao farnel, um contrato cidade/aldeia, uma troca directa de serviços por produtos, sustentado por vontades férreas, capazes de todos os sacrifícios sofridos pelo anseio de mudar a vida dos filhos. Começava a falar-se duma herança novíssima: deixar um "cursozinho", para a sorte ser menos dura, menos imprevisível e mais rendosa. Com a "maré de feição" e a escassez de cobres a aconselhar recato, houve quem cumprisse o sonho...
Estudantes todos, no 1º de Dezembro, diziam o ser e o querer diferente. Do outro lado do conformismo, outros (e outras, ainda assim entre parêntesis, porque tão poucas...), envolviam-se nas capas negras, desfraldavam fitas coloridas pintadas com carinho e bem-fazer e cantavam, cantavam, cantavam...
Por isto, por aquilo, por aqueloutro, soltavam Éferreás a extravasar a irrequietude, a alegria e a intranquilidade da Academia.

Olhavam-nos de soslaio porque se pressentia o anseio de fazer ondas, no charco de paz musgosa e bafienta...
Eram esses que frequentavam pastelarias, sem ser ao domingo e dias-de-guarda, e iam eles e elas, juntos, companheiros... a soltar as línguas em pratinho de conversas de que eram protagonistas...
Às vezes, ousavam mesmo namorar, sem se esconderem. Não iam muito além de uma troca de olhos, porque avisavam os entendidos nos ditames do burgo: "Sabe como é, menina: basta encostar um braço, para os outros falarem!". Sabia-se pois; ora se se sabia !...
Havia lá par que fosse capaz de dar a mão, pôr o braço no ombro e ternurar deste jeito pelas ruas? Cairia o Carmo e a Trindade, tanto mais que o namoro era tido como uma transgressão óbvia, geradora de pecados em acumulação, que conhecíamos de cor e salteado e que, para bem e exemplo de todos, devia redundar, para os praticantes em "raposas" múltiplas! Vá de retro, portanto! Se até os ousados se desviavam do Monteneve - os professores adoravam aquele café! - para não cair debaixo dos olhos dos frequentadores !...
Alguns deles, simpatizavam com este grupo: bem se lho adivinhava na cumplicidade do olhar, do sorriso, do aviso/conselho encabulado, muito à maneira de para não dizer que não falei de flores!
Aprendia-se com eles a solidariedade, o entusiasmo, a alegria que se desprende de um convívio sem peias, envolvido pelo prazer de descobrir pessoas sábias, insatisfeitas, que, em nenhuma idade, desistem de querer mudar o mundo para melhor, e apreciar os que abrem nesguinhas a liberdades inocentes...
O 1º de Dezembro ficou como o dia dos estudantes da Guarda, a data do encontro de todos, partilhando a saudade de umtempo sem rugas e ainda capazes de palavrear com o Sancho, se o som duma serenata se solta nas escadarias da Sé.

Maria Antonieta Garcia  

 
     
     
 
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  D. Sancho I  
     
 

Nasceu em Coimbra a 11 de Novembro de 1154. Em 1166, com apenas 12 anos, chefiou a expedição militar a Ciudad Rodrigo, tendo quatro anos mais tarde começado a colaborar activamente no exercício do poder político e na gestão do reino. Casou no ano de 1174 com D. Dulce de Aragão, subindo ao trono em 1185.
Segundo rei de Portugal, filho de D. Afonso I e de D. Mafalda.

O monarca vai ficar quer afectiva quer historicamente ligado à cidade da Guarda.
Desde logo, quando a 27 de Novembro de 1199 concede o foral à futura cidade da Guarda e quando transfere a Sé da antiga Egitânia, que o rei doara à ordem dos Templários, para uma nova cidade que irá fundar num local, estrategicamente situada na serra da Estrela, que possibilitava o controlo fronteiriço, defendendo um vasto território que era assolado por várias batalhas provocadas pela indefinição das fronteiras.
Tal indefinição só vem a terminar com o Tratado de Alcanises em 1297.
No plano afectivo não podemos esquecer os amores do soberano pela Ribeirinha imortalizados na cantiga de amigo:

 

«Ai eu coitada, como vivo em gram cuidado
por meu amigo que ei alongado!
Muito me tarda
o meu amigo na Guarda!

Ai eu coitada, como vivo em gram desejo
por meu amigo que tarda e nom vejo!
Muito me tarda
o meu amigo na Guarda!»

 

Foi um grande administrador, tendo acumulado no seu reinado, um verdadeiro tesouro. O povoamento das terras foi uma das suas maiores preocupações, criou concelhos e concedeu cartas de foral. Conquistou Silves, que era na altura uma cidade com 20 000 a 30 000 habitantes e uma das mais ricas cidades do ocidente peninsular, e também Albufeira. 
Passou a intitular-se rei de Portugal e dos Algarves. Perdeu-se novamente Silves e os mouros reconquistaram novamente Alcácer, Palmela e Almada, ficando apenas Évora na mão dos portugueses.  

Depois das sucessivas perdas de terras para os Mouros  D. Sancho I aproveitou este facto para realizar medidas respeitantes à povoação do reino e das terras devastadas pela guerra. Para este efeito introduziu a política dos forais (reorganização administrativa local do reino - formação de concelhos) e conseguiu fixar no Ribatejo estrangeiros entretanto chegados. Esta situação advém do facto de que os territórios não povoados eram fáceis de conquistar pelos Mouros, já que não havia neles qualquer tipo de resistência. Em consequência da sua habilidade política (em contraste com os desaires militares) D Sancho I restaurou as finanças da coroa e promoveu a cultura, tanto em Portugal como no estrangeiro. oO  próprio rei foi poeta e enviou muitos bolseiros portugueses para universidades estrangeiras Foi no seu reinado que se assistiu ao surgimento de um diferendo com a Santa Sé e com o Bispo de Coimbra. É atribuída, hoje em dia, a D. Sancho I a autoria da mais antiga cantiga de amigo dos Cancioneiros. D. Sancho I morreu no dia 26 de Março de 1211 em Coimbra onde  está sepultado na Igreja de Santa Cruz.

 
     
     
     
 
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  A Capela (Igreja) da Misericórdia  
     
 

Apresentação

Nos estudos acerca do património da cidade avultam os que elaborou, dispersos nas revistas J e nos jornais de há um bom meio século, o doutor Carlos Alberto Marques.
Geógrafo e professor de Geografia no Liceu Nacional da Guarda durante trinta e um anos (1928-1959), Carlos Alberto Marques nasceu em Vale de Espinho (1896), localidade onde passou a residir depois de se reformar do ensino, e onde faleceu (1965).
É autor de duas importantes obras de geografia e de antropologia: A Bacia Hidrográfica do Côa (Coimbra, 1935, nova edição, Lisboa, 1995) e A Serra da Estrela (1939, reedição, Lisboa, 1996).
A circunstância de a conceituada editora Assírio e Alvim ter decidido reeditar ambas estas obras, ouvido o conselho editorial, atesta o seu valor cientifico e ainda actualizado.
Carlos Marques, como na Guarda era conhecido, utilizou pseudónimos: um, ainda estudante
(Karl Marx) e outro, já professor: Carlos Manuel. Sob este pseudónimo encobria, em elevado grau de modéstia, o geógrafo conhecido que ele era, em todo o país.
Com este pseudónimo subscreveu uma série de três artigos, a saber:
A Capela da Misericórdia da Guarda. I - Em demanda da verdade histórica; 11 - Ainda a história e um pouco de arte; 111. Ainda a história e um pouco de Arte. Os três artigos foram publicados no semanário Correio da Beira (Guarda), nas seguintes edições: nº 337 (2.7.1953), nº 338 (9.7.1953) e nº 339 (16.7.1953), todos a começar a página 2 do referido semanário, que estivera suspenso entre 29 de Outubro de 1952 e 12 de Março de 1953. Um novo director (Dr. Manuel Duarte) sucedera ao ilustre Dr. Agostinho Almeida Escada, histórico director do semanário. Com o propósito de compilar; sistematizar e facultar aos estudiosos textos dispersos menos acessíveis, a seguir se reproduz o curioso ensaio de Carlos Manuel.

 

A Capela da Misericórdia da Guarda

I - Em demanda da verdade histórica

 
Ignora-se a rigorosa data da criação da Misericórdia da Guarda. Sabe-se que a fundação da Misericórdia de Lisboa, paradigma ou modelo de todas as Misericórdias portuguesas, é de 1498, sendo rei de Portugal D. Manuel I.
Mais se sabe que as Misericórdias são apenas um aspecto ou modalidade do grande incremento e reforma da Assistência geral do nosso País, em Quatrocentos (séc. XV), graças sobretudo à actividade caritativa e inteligente da Rainha D. Leonor, do Príncipe Perfeito (D. João 11), do Venturoso D. Manuel, do Trinitário Frei Miguel Contreras e do Cardeal de Alpedrinha (D. Jorge da Costa).
Depois de Lisboa, em 1499 é criada a Confraria ou Irmandade da Misericórdia do Porto; no mesmo ano a de Évora; em 1500, a de Coimbra e a de Beja; em 1514 a de Castelo Branco, em 1537 a de Pinhel, em 1577 a da Covilhã, em 1600 a de Linhares, etc. etc.; acerca da Misericórdia da Guarda nem uma palavra. (Vidé Doutor Fernando da Silva Correia - Origem e formação das Misericórdias Portuguesas. Lisboa 1944).
Há vinte anos, aí por 1933, li a cópia manuscrita (arquivada no Cofre da Santa Casa da Misericórdia da Guarda) do Regimento ou Compromisso da Misericórdia de Lisboa - 1498 - que o fornecia, gratuita e gostosamente, «a todos os grupos de bons e fiéis cristãos que desejassem instituir, fundar ou erígir nas suas povoações Confrarias ou Irmandades para a realização de todas as Obras de Misericórdia». Ao fundo ou termo do dito manuscrito lê-se: Leonor regente. Tomei para mim como apócrifo tal documento. Como não, se eu supunha que a Leonor regente era a viúva de D. Duarte, D. Leonor de Aragão, que exerceu a regência do País, de 1438 a 1440, pela menoridade de D. Afonso V e, portanto, cinquenta e oito anos antes da fundação das «Misericórdias»? !
 

Além disso, estava eu convencido de que a Rainha D. Leonor jamais fora regente... Somos muito ignorantes, ou melhor, reconheço inteligentemente que é incomensurável o que ignoro e limitadíssimo o que sei ou conheço!...
Soube há poucos anos que a Rainha D. Leonor, já viúva, foi regente de Portugal durante seis meses, e que nesse lapso de tempo deu premisso, consentimento e mandado para a redacção do Compromisso que regularia a vida e actos das Confrarias ou Irmandades das Misericórdias portuguesas.
É que D. Manuel I, aclamado rei de Portugal em 1495, casou em 1497 com uma das filhas dos Reis Católicos (Fernando e Isabel) Isabel de Castela, que ao tempo já era viúva do malogrado filho de D. João lI, o Príncipe D. Afonso de Portugal.
Tendo falecido, porém, o único filho varão dos Reis Católicos, o Príncipe D. João, era o nosso rei D. Manuel legítimo pretendente ao trono de Castela e Aragão, por parte de sua esposa
I Isabel de Castela. Por isso se deslocaram de Lisboa para Toledo e Saragoça os nossos Reis a fim ! de fazerem valer seus direitos, 

«Por comum consentimento dos Estados Portugueses» - e só isso nos interessa no caso sujeito
- Assumiu a regência do nosso Reino a Rainha D. Leonor, viúva de D. João II e irmã de D. Manuel.

Assim fica rectificado o erro e pode admitir-se como autêntico o manuscrito a que me referi, posto que só em 1516 fosse impresso o original manuscrito, de 1498, do Compromisso da Misericórdia de Lisboa.
Simão Antunes de Pina, da Guarda, parente em 3.° grau de afinidade do Cronista-Mór do
Reino, Rui de Pina, foi clérigo beneficiado de três rendosas igrejas; além disso, era pessoalmente muito rico e assim pôde e quis legar generosamente e por testamento à Misericórdia da sua terra a quantia de oito mil cruzados, para se construir uma capela para o serviço religioso da Irmandade da Misericórdia da Guarda. O benemérito doador morreu em 1594.
Em face do exposto, talvez se possa afirmar agora que a instituição da Misericórdia da Guarda
é anterior a 1594, pois que não é de crer que o generoso Simão de Pina legasse tão avultada I quantia a uma Confraria não erecta, isto é, inexistente; da mesma forma, poder-se-á afirmar que a fundação da Misericórdia da Guarda não data de 1498, pois que o citado Compromisso da Misericórdia de Lisboa era e continuou a ser fornecido a todas as Misericórdias que se iam erigindo.
Nada se pode demonstrar documentalmente, mas não repugna conjecturar a fundação da Misericórdia nos meados do séc. XVI, quando compararmos e saibamos da relativa importância religiosa, social e económica da Guarda nesse século.
Como os factos passados só podem ser conhecidos pelo testemunho e através de uma observação indirecta, há que investigar as fontes (monumentos e documentos) e interpretar os factos, se queremos fazer história.

Fora disto não há história mas lendas, historietas, anedotas, fantasias, etc...
 

II - Ainda a história e um pouco de arte

Se o benemérito clérigo guardense, Simão de Pina, legou por disposição testamentária oito mil cruzados para se construir uma capela para Irmandade da Misericórdia, é de crer que a fábrica desse templo só se poderia ter iniciado depois de 1594, isto é, depois da morte do testador. E anteriormente, como e aonde actuavam ou exerciam o seu múnus os dois capelães? Tanto se poderá supor a existência de uma capela da Misericórdia de exiguidade tal que não satisfizesse às necessidades e serviços da Confraria, como se poderá pôr a hipótese de que os serviços religiosos da Santa Casa tivessem lugar em qualquer dos templos egitanienses...
Ora acontece --, e toda a gente o pode verificar - que numa edicula da capela-mór na base dos degraus do altar principal e do lado do Evangelho, haver uma jacente, à qual se sobrepõe o brasão de pedra dos Pinas, que é a tampa do sarcófago ou túmulo de Simão de Pina, onde se escrevem em letras de capital romana, douradas, o seguinte: - Sob esta capela jaz a ossada do fundador desta Igreja Simão Antunes de Pina 5 D D.bro (cinco de Dezembro) 1611.
Em várias lápides ou lajes sepulcrais, epigrafadas, que ocupam uma quarta parte do pavimento granítico da Capela da Misericórdia, podem-se ler ainda as datas de 1615, 1632, 1641, 1672, etc., isto é, datas do séc. XVII; os restantes três quartos, também com lápides datadas do mesmo século - ainda as vi e as li - foram, aqui há dez anos, cobertas por um pavimento de madeira porque, partidas, desniveladas, esburacadas, com arestas e sulcos, eram impróprias do templo e magoavam os joelhos dos fiéis.
Parece, portanto, que a esbelta Capela da Misericórdia, de estilo joanino (D. João V), foi acabada ou concluída em 1611, quer dizer, quando para ali foram transportadas as assadas do fundador; a reforçar ainda este parecer, na dita Capela - como já vimos - encontram-se outras sepulturas com inscrições tumulares do séc. XVII.. .
Todavia os supostos e apressados investigadores caem em espectacu1ar contradição: - o estilo da Capela é inegavelmente joanino, séc. XVIII (D. João V subiu ao trono em 1706, iniciou as obras do Palácio de Mafra em 1717, e o Palácio, depois Mosteiro, ficou concluído em 1730) e a maior parte das sepulturas, começando pela do fundador, são do séc. XVII!. ..

Daí, para salvar a contradição, já ser afirmado, bárbara, leviana e erradamente, que o estilo da Capela da Misericórdia da Guarda, é pura Renascença!...
Simão de Pina morreu em 1594, durante o governo de Portugal por Filipe li de Espanha; quando as ossadas do fundador da Capela foram na dita Capela depositadas - 1611 - reinava no País Filipe III de Espanha (Filipe li de Portugal).
Ora, o estilo joanino (em Arte) não pode ter sido criado ou inventado no tempo de governo dos Filipes mas tão somente no tempo de D. João V.
Mais: foi o Palácio de Mafra a escola dos arquitectos e dos estatuários portugueses, escola onde eram mestres, para a arquitectura, o alemão de Ratisbona João Frederico Ludnyg e para a escultura, o italiano Giuste: portanto, só depois de 1730 - conclusão das obras de Mafra - é que os artistas portugueses, utilizando motivos portugueses, diferenciando-se e individualizando-se segundo os sentimentos, ideias, paisagens e costumes portugueses, inventam um estilo que não é bem o rócócó francês, o barroco italiano ou o espanhol mas o estilo joanino, o estilo da Capela da Misericórdia da Guarda…
Mas... e as datas tumulares do séc. XVII? Todos os guardenses, de mais de vinte anos de idade, se lembram das casas ou construções, anexas à Capela, a Sala do despacho, as residências do sacristão e a do Empregado da Farmácia, a mesma Farmácia e o chamado Hospital Velho que foi utilizado até à construção do Hospital «Dr. Francisco dos Prazeres» para os fins próprios e depois veio a servir para tudo... e é hoje o Centro de Assistência Social.
Ora, tais construções eram contemporâneas do antigo Seminário, com os pátios ou claustros, de estilo forte e feio, do séc. XVII.

Também sabemos que Simão de Pina mandou edificar a igreja de Nossa Senhora dos Remédios e, como é do séc. XVII, é do estilo setecentista, forte e feio, jesuítico também chamado.
Assim temos de conjecturar - as conclusões em História são caracteristicamente conjecturais - que a Capela construída com os oito mil cruzados de S. de Pina era de estilo jesuítico e que mais
I tarde - não consegui encontrar documento algum que ao caso se refira; nem sequer o manuscrito do quase indecifrável «Livro da Córrea» diz alguma coisa - aproveitando apenas a base, onde ficaram portanto, todas as sepulturas, se fez a Capela, do estilo joanino.
i Ou não chegaria à Guarda nenhum bandeirante do oiro, da prata e das pedras preciosas do ! Brasil... a oferecer, a dar uns cruzados para a reconstrução da Capela?

 

III - Ainda a história e um pouco de arte

Coloca-se ordinariamente na Itália e no Quatrocento (séc. XV) a idade de oiro do renascimento.
As outras grandes nações da Europa, que não os Estados, acompanharam, interessadíssimas, o movimento literário, artístico e mesmo científico, que irradiou principalmente dos focos de Florença, Roma, Veneza, Pisa, Milão, Nápoles, etc. mas só no século de Quinhentos atingiram completamente os modelos clássicos greco-romanos.
A França, porém, dadas certas razões impeditivas que temos de omitir agora, teve com Luís XIV, no séc. XVII, a hegemonia política e cultural da Europa; sob o aspecto cultural, chamou-se ao renascimento francês neo-classicismo.
I A sua expansão foi tal que a própria mãe das Artes, a Itália, adoptou o rocaille francês com o nome de barroco, pondo de parte, sobretudo em arquitectura, o estilo Renascen&cc